7.9.09

Limites



Limites
Rainer Werner Fassbinder escreveu:

«É claro que uma pessoa apesar de tudo tem de se adaptar. Dê lá por onde der. Disso ninguém se safa. Atenção, adaptar-se não quer dizer pores-te logo a pensar de uma maneira diferente daquela que costumas pensar. Para te adaptares começas por reprimir os pensamentos. É como com os sonhos ou com os desejos, é possível a gente viver na sociedade, a sociedade até nos pode oferecer uma ou outra coisa. Tens é de saber ao que vais renunciar. Não se pode ter tudo, é óbvio. E se se pudesse também era demais, não era? No fundo, sabes, tu és responsável por tudo, se levantas a mão, és responsável por isso, ou quando falas, és responsável. És responsável por tudo.»



Da minha casa vejo as árvores com grandes galhos. Deles crescem folhas, umas, pequenas, outras, grandes. Todas as vezes que o sol lhes bate, avivam cores e a rua desce em sua direcção; as minhas janelas inclinam a sombra dos pássaros. Depois dos seus barulhos, tudo se parte em cacos e ferros no parapeito, a dois dedos da pouca terra que a floreira suporta, algumas flores, violetas e sardinheiras brancas, que atravessam a morte.
Nos limites das pedras a cidade escondia a idade, depois dos pássaros passarem e do ruído voltar a circular nas rotundas no inicio da rua, no inicio do desenho.
Quando era pequena achava que a minha língua era demasiado grande para me caber na boca, enquanto dormia. Todas as noites, antes de adormecer, media, com os dedos, a língua da minha irmã mais velha e, depois, a minha que, claro, era a mais curta, embora me parecesse o contrário! Como precaução, não fosse magoá-la, decidi que devia dormir com a língua fora da boca e, muitas vezes, acordava incomodada pela humidade da baba que caía para o queixo e, depois, para a almofada, molhando-a, por fim, antes de a secar. Com o passar do tempo a cola da baba na roupa incomoda a minha mãe que se farta de me ralhar; forçada pela minha mãe, aceito a ideia de que a minha língua tem o tamanho certo; só necessito de arranjá-la mais, isto é: curvá-la para caber toda dentro da boca ao lado dos dentes colada ao céu, depois da garganta, perto de ninguém e do desenho.
A seguir à língua foram as árvores e as suas folhas caídas, e as penas dos pássaros, que passaram antes do barulho, os cacos da morte das flores, o declínio do sol na rua e nas janelas; mais os monólogos a ficarem dentro da boca durante a noite. Ainda assim, mesmo a não sujar as roupas da cama. Não entendo porque que a minha mãe continua preocupada com o limite de coisa má que possa sujar o desenho; se o prendo com lábios lentos, a noite toda, para se ir adaptando até ao amanhecer!?


Ana Maria Jacinto
Setembro de 2009

3 comentários:

Eliana Mora (El) disse...

[...] declínio do sol na rua e nas janelas; mais os monólogos a ficarem dentro da boca durante a noite."

E tudo aquilo que brotava do porão de sentimentos mais elementares, e outros, de pele, de absorção da vida, do que não se prende com os dentes...

Absoluto e real [eu me identifiquei, muito]

beijos e muito amor

El

Mulher na Janela disse...

Saudades muitas de você, amiga!

Beijos...

FC disse...

deixo um monólogo sem folhas
um galho que parece seco
mas afinal só espera
ver a Primavera!

Deixo endereço para Dedicatória,
bjs
F

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