12.8.07

Jorge Vicente

Pintura


9.

dizem: as perseguições foram há muito tempo, quando ainda havia
paredes dentro da casa e as relíquias dos mártires eram inatingíveis,
como um signo de amor que ainda não revelasse a sua face oculta

e são tantas,
tantas que as lágrimas apenas derramam o que resta do meu sangue. e
pareço quieto. e pareço firme quando sei que a chama me fará explodir
e que o meu corpo já não é a alma toda

dizem: é assim toda a cristandade. a alma não transporta o corpo nem
o resume. é uma entidade separada. de fora, o coração, o olho
esquerdo e o olho direito, a lágrima, a língua que inventa canções
quando o sangue vibra na chama

não, não é o corpo todo. o corpo não renuncia ao amor nem à dádiva de
ser tudo perfeito, como se eu fosse uma concha que vivesse mil anos e
fosse apenas isso. um lento entrar e sair, assumindo a morte e uma
gratidão sem limites. saberia que dormiria a seguir e que atravessava
um oceano infindo, num mar que não é meu, mas que pertence a todos os
homens.

Jorge Vicente

3 comentários:

Amaral disse...

Belo texto de Jorge Vicente.
Sendo separados(...), acho mesmo que a alma transporta um corpo para Se experienciar nesta vida terrena.
Mas dizem...
"um mar que não é meu, mas que pertence a todos os homens."

jorge vicente disse...

obrigado, amiga, pelo presente tão bonito. não sabia que a minha alma voaria para estas paragens!... até fiquei derretido

um pouco

um beijinho amiguinho
jorge

eremita disse...

NÃO É SÓ NO MEU DEAMBULAR QUE ENCONTRO MAGIA. fLIZMENTE TAMBÉM A ENCONTRO POR AQUI.
Bom feriado.

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