17.8.08

A tímidez é um chamamento que os amigos conhecem!


(ou da loucura da poesia)

Estive doente

a poesia é essa doença sã
essa lúcida loucura
que salta dos abissais da alma
irrompe das entranhas do coração
e ganha corpo e vida e luz e imensidão
e se multiplica
no coração dos homens

Doente dos olhos,

a poesia é cega
infinitamente cega
uma enorme monumental estranha cegueira
a que ilumina
o mundo
a que dá olhos aos que não sentem
luz aos que não falam
voz aos que não ouvem
a que se oferece guia
aos deserdados os perdidos os descaminhados
pelo mundo

Doente da boca,

a palavra e a boca
a boca e a pedra
a pedra e o som
o som e o silêncio
o silêncio e a noite
a noite e o dia:
o dia-a-dia da poesia
em busca do poema que se esconde
no riso e no choro
no belo e no abjeto
no claro e no escuro
do mundo

Dos nervos até.

não há poema no vazio
não há poema sem sangue
não há poema sem nervos

Estou em repouso,

o repouso do poema
é uma miragem:

a poesia nunca se recolhe em paz
nunca se deixa pacificar

a poesia é a alma em ebulição
o coração aos berros

(como uma virgem à espera
do êxtase que nunca vem)

Não posso escrever.

a poesia dispensa as máquinas
a poesia prescinde da mão

pouco importa à poesia
a mão que grafa
a mente que opera

(pouco importa)

não importa
a escolha cerebrina de palavras
a escolha ditada
a escolha não-escolha

(a poesia escrita
- muitas vezes -
é uma traição
desavergonhada à poesia)

Eu quero um punhado
De estrelas maduras,

ah! a metáfora!
ah! essa divina loucura
(a mais pura a mais virginal a mais divina criação humana)
a
que nos leva ao escape da danação de ser
ser imperfeito
ser (eternamente) inconcluso
ser em eterno sendo

ah! a metáfora
a sacra mentira
o refúgio
do inferno da mentira
o abrigo
do desespero de existirmos num mundo
de falsas verdades
de falsas ilusões
de falsas invenções de ser

Eu quero a doçura do verbo viver.

a poesia nos devolve a exata dimensão do
que somos
e nos revela a inesgotável imensidão do
que podemos ser
(sendo)

©Bosco Sobreira

(Os versos, em verde, são De um louco anônimo - transcrito por Caco Barcelos na reportagem Crime e loucura, publicada na extinta Folha da Manhã, Porto Alegre, RS.).
Para ler o poema na íntegra, clique aqui.

1 comentário:

Mulher na Janela disse...

adorei Bosco aportado em seu mar português, minha querida mana....

beijos brasileiros...

Iara

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