10.1.08

Geraldes de Carvalho



Autuanálise
Auto-análise


Assento-me no escabelo da minha consciência
e assisto maravilhado
ao desenrolar de múltiplos e incondicionáveis acontecimentos.
Que espectáculo maravilhoso !
Mas é preciso não sofrer de vertigens para suportá-lo.
Nascem-me, não sei de onde nem como,
ideias que borbulham ao princípio timidamente
para depois se imporem
e tudo ameaçarem inundar ;
e assim como vieram assim se vão
deixando é certo
uma impressão de imensa frescura
mas absolutamente nada de menos indefinido.
E as lembranças (?)
que assomam de buracos imprevisíveis
como ratos no cinema de Disney
e conforme encontram o terreno livre ou perigoso
assim se instalam, mas nunca tranquilamente,
ou passam correndo apenas reconhecíveis pelo sentimento ?
Também me enervam os ratos
mas não fujo para cima de nenhuma mesa.
Fico ali assistindo a cópulas monstruosas
em que dois -ou mais- destes seres inominados
se juntam e misturam impudicamente .
Pensamentos chamo eu
aos nascidos de partos de todas as categorias.
E, sempre sentado no escabelo da minha consciência
assisto ao crescimento dos meus pensamentos.
Sigo-lhes a vida a par e passo.
São milhares.
Discorrem ao princípio tranquilamente
a um lado e outro lado do conhecimento
e se encontram um pequeno obstáculo
fazem dele motivo de brincadeira.
Pequenos muros que saltam como cabritos contentes,
muros maiores que transpõem com galhardia
e maiores que transpõem com heroicidade.
São assim os meus pensamentos .
A sua vida é alegre mas não muito gloriosa
até que chegam ao último obstáculo.
É um muro grande grande de que se não vê o cimo
mas parece um muro deste lado.
Também podemos chamar-lhe o mistério
que é uma palavra para o que não tem palavras.
E depois que lá chegaram
e o enfrentaram
sem o conseguir ultrapassar
obstinam-se louca e encarniçadamente.
Empinam-se como cavalos generosos
e batem-lhe com as patas dianteiras.
Quando reconhecem a inutilidade dos seus esforços
quedam-se e reúnem-se para deliberar.
Então começam os desentendimentos.
Cada um tem a sua própria resolução
e engalfinham-se como galos estúpidos e barulhentos.
É aí que eu me levanto do meu escabelo
e cego pela ira -porque eu não admito violências-
procuro separar os contendores.
Luto com eles sem lhes ver a face
- irado como estou -
É uma luta terrível e silenciosa
e, subitamente,
encontro-me a esbofeteá-los.
Então uma grande calma nos invade
e voltam para mim a minha face magoada.

É por isso, é por isso
que eu tenho esta face magoada.


Geraldes de Carvalho
de “a outra luta de Jacob” Beira-Moçambique 1964

2 comentários:

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