20.10.07

Desafio da semana de poesia da lista Amantedasleituras



TEMA: "um delicado pólen a penetrar/em minha tenra/flor"
de Eliana Mora, in – " Pacto com um sol de primavera"


01
magia
ou como se existisse
dentro da escuridão o branco trinca
como pedra pura, diamante

noite!
em que simbologia
onde mais incorporar desvios sombras ou olhar
treme que a pulsão que é tua
atónita pergunta

clara/mente
criatura a esperar a chama tua
muda completa e portentosa
lança escrava e bárbara a procurar o segredo
desta rosa

e a mandala ergue-se e agita todos os tormentos
soma-se à luz
sagra-se

[e a vida grita
02
Orvalha a manhã na verdura das folhas
e as pétalas que se abrem em rubro
unem-se em poema veludoso.
São jardins as mãos de poeta

03
oficina do corpo no barro fértil
da flor como um murmúrio
no teu ouvido forte e limpo
só flauta, assobio lento
teu corpo de mimo no lençol
parede clara para o novo
barro liso e claro
04
ah, mas foi o vento, essa imodesta
inquietação, suspensa presença,
que me ensinou a manter-me fresca
e sensível, passeando vagarosamente
por minha tez aveludada

com ele aprendi a receber o resgatável
pólen no impreciso vôo, na sua descida
ao fundo da minha delicadeza

aprendi a saboreá-lo, a domar a humidade
das minhas pétalas que o aguardam
- nuas de sorriso, como num rito –
no momento solene da penetração

05
Cada gota é um sol de pétalas
Sonoras como madrugadas
Entre lençóis de sede rubra
Na sede dos corpos plenos
É o pólen que excita a flor
Não só o estilete ruborizado
Incendeia a terra eterna
Pelo estigma do futuro
Ávido de braços candentes
06
Minha flor não é mais tenra flor
e sua terra talvez seja o leito de meus grãos
em meu espasmo de inquietação
porque ora delicada ora agreste
sua nuvem de pólen habita ainda por entre
as membranas duma fotografia
Em mim esta respiração que dos frutos colho
das lembranças em minha geografia.
07
Entre as mãos te seguro
Pedaço do qual sou feito.
Corpo de terra
sonho de mim,
Água de lábios,
areal sem fim.
Mar numa gota
de suor feito veias.
Onde sou nau e velame
e já não sou nem mais eu.
E entre o sempre
dos milénios
condensados
no eterno voo
dum momento,
Solta-se-me dos olhos
o pólen imergente,
da luz, a semente
que povoa os céus.
08
talvez não mais sejas tu a colher-me
das pétalas o fruto e, se gemes no leito
com o descanso da tua paisagem,
é porque nesse insólito fertilizar
divagaste pelo avesso

mais do que a chuva que não desliza,
altera a terra o suor que navegaste
e a vaporizou, névoa, delicadamente

o sol que nasce de um momento breve
(ainda que de esmaecido vôo) fica
eterno na memória do pólen, dia alongado

na hora da germinação a luz adormece,
os céus paralisam e se esvazia
de qualquer ímpeto o cenário.

09
o mel

à boca da flor

Abre um sol

10
na pura manhã
um bilhete da Lua:
eu vi!


Índice de autores:

01 – Eliana Mora
02 – Vera Carvalho
03 – José Gil
04 – Sónia Regina
05 – Luís Monteiro da Cunha
06 – Bernardete Costa
07 – Carlos Luanda
08 – Sónia Regina
09 – Ana Maria Costa
10 – Eliana Mora

3 comentários:

Charlie disse...

...descansar as hormónicas....:)

Raquel disse...

Olá querida Ana!
Quantas saudades! Tenho dado exclusividade ao meu pequenino e mano e quase não navego na net, mas ando há tempos para vir até aqui ver as tuas letras, dar-te um beijinho, agradecer-te as palavras sentidas e deixar-te os Parabéns que uma caloira tão especial como tu merece a multiplicar muitas vezes!!

ana maria costa disse...

Querida Raquel como é bom cheirar-te!

Vê-se que tudo correu bem, graças a Deus. Continuas linda e feliz.

No dia 15 de Dezembro vou publicar o meu primeiro livro de poesia "Nascido Tarde" gostaria tanto que estivesses presente.

um dia será dia, não achas?

jinhos aos milhões.

Minho actual tv