28.1.08

Carta de Luís Monteiro da Cunha



Foto de origem desconhecida

Esta carta é para ti

Luis Monteiro da Cunha*

Esta carta é para ti. Sei que te surpreenderá
receberes esta missiva após tão longo silêncio. Pelo
facto, peço que me perdoes; que nos perdoem as
palavras que então dissemos, esgrimimos e não
compreendemos, cegos que estávamos pela alvura do
momento. Desculpa este silêncio que plantamos, qual
barreira do tamanho de um oceano, que um dia – aquele
dia, lembras? – gota a gota, emergiu e deixamos fluir
entre nós, livre de peias, amargando a distância como
um céu escuro e tempestuoso.

Sabes que todos os mares encerram em si, segredos que
apenas os mais afoitos merecem desvendar. Considera
este gesto, um passo humilde no caminho da harmonia
que um dia nos abraçou e sei ser ainda possível
recuperar. Espero que estas letras, que desejo puras,
honestas e concisas, sejam o meio necessário para
navegar até ao teu âmago.

As palavras – que amamos como o sol da vida – foram a
nossa desgraça. São tão duais, as palavras; que por
vezes nos fazem esquecer as distâncias que um dia nos
aproximaram; outras vezes esquecemos a tradução que o
destinatário induz de uma mesma palavra. Convencidos
que somos, intuímos ao escrever, que as palavras são
verdadeiros e plenos mensageiros, conseguem transmitir
todos os significados e sentimentos com que foram
escritas e nesse gesto simples e gráfico, transportam
consigo a carga etérea e sublime de paixão ou devoção
do momento. Agora, compreendo que é – sempre foi e
será – um erro crasso e estúpido. Elas nada mais são
do que meios singelos de comunicar e de registro, de
factos que assomam na mente de quem escreve; mas este,
esquece um necessário e primordial preâmbulo do
destinatário: apenas será totalmente compreendido, se
o leitor estiver receptivo e – mais importante ainda –
tiver o mesmo cunho cultural, social e geográfico;
tudo o mais que possa diferir, apenas o fará
compreender parte da mensagem, olvidando ou
interpretando de uma forma díspar e pessoal o
restante. Acredito ter sido este o motivo do silêncio
nas palavras.

Já vou longo e a divagar. Termino, dizendo que as
palavras não deveriam ser amarras de navios ancorados
em margens opostas de um mesmo oceano, antes deveriam
ser sussurradas. Por isso aqui estou…

Se me perdoas e aceitas estas letras, procura-me na
tua rua; no teu jardim,
na mercearia; no bar; no escritório; procura-me à tua
porta, sou aquele que
está faminto, tirita de frio e dor, gemendo de
ignorância.

Até já…

Luís Monteiro da Cunha

26.1.08

Texto de Xavier Zarco para alguns amigos comuns



foto de autor desconhecido

O sábado é o dia em que coloco a correspondência electrónica em dia, ou o mais perto disso possível. Há disponibilidade, há tempo para ler o que se foi partilhando ao longo da semana através dos grupos em que participo.

Mas hoje é um sábado diferente. Diverso porque dois dos nossos camaradas estão doentes: o Manuel C. Amor e o Luís Monteiro da Cunha.

Sobre o primeiro escrevi: que “é um oleiro que ergue as suas peças com a sua própria argila, um amálgama de sentidos e sonoridades muita das vezes proporcionado por palavras oriundas da sua Angola”.

Sobre o segundo, disse que “nos seus poemas, denoto uma leveza extrema, um desprendimento que, por vezes, é surpreendente. Seus versos são para usufruto de quem desejar, de quem ousar. Neles observamos – ou podemos observar – pequenos instantes, histórias, quadros que se desenvolvem sob a batuta dos sentidos.”

Para eles, fica aqui os meus votos para que rapidamente voltem ao nosso convívio.

Mas hoje, dia vinte e seis de janeiro, o José Dias Egipto apresenta na sua cidade natal, Braga, o seu novo livro: “O último passageiro”, sob a chancela das Edições Calígrafo. Desejo, neste dia que é sempre especial para quem escreve, que seja um sucesso. O seu trabalho bem o merece.

Xavier Zarco

Eu assino por baixo.

20.1.08

LANÇAMENTO DO LIVRO "NASCIDO TARDE"

Foto de Altino Costa.


Tenho andado no universo,
onde não há sol ou noite...
A erva cresce nas lembranças
as palavras nascem sem cor.
Só tenho flores
que habitam nos meus olhos,
guardadas nas palavras que me oferecem.

Ana Maria Costa

Alguns elementos da equipa que compôs e lançou o livro "NASCIDO TARDE"


Foto de Altino Costa do evento do lançamento do livro "NASCIDO TARDE" de Ana Maria Costa.
A todos o meu muito obrigada.
Ana Maria Costa

Poema s/ título

Foto de Altino Costa de Ana Maria Costa (autora), Rúben Correia, Otília Costa e Joana (actores) no evento do lançamento do livro "NASCIDO TARDE" de Ana Maria Costa.



As palavras nuas do interior reboliço
saem dos lóbulos e do sexo
e é no sexo que se detonam as flores
e nos lábios que as pétalas desabrocham.
Ana Maria Costa

Nocturno

Foto de Altino Costa de Carolina Rangel no evento do lançamento do livro "NASCIDO TARDE" de Ana Maria Costa.

Nocturno

Lua dorme
a noite é cega
a estrela é cão!
Ana Maria Costa

Som

Foto de Altino Costa de José Gil e Jorge Vicente apresentadores do livro "NASCIDO TARDE" e autora Ana Maria Costa


Som
Apareço na minha voz!
Na fenda da língua
ecoo (me) …
Ana Maria Costa

Metamorfose


Fotos de Altino Costa de Ana Úrsula Costa (Ginásta Europeia) e a banda de Jazz "Amantedasleituras" no evento do lançamento do livro "NASCIDO TARDE" de Ana Maria Costa.

Metamorfose

Dos olhos
as lágrimas
abrem asas.

Ana Maria Costa

Pequenas coisas

Foto de Altino Costa da Tuna da UP (FLUP) "A CUCA" no evento do lançamento do livro "NASCIDO TARDE" de Ana Maria Costa

Flor é flor
quando abre
a sua cor.


II


Quando a boca
abre
o ar enche-a.


Ana Maria Costa



10.1.08

Geraldes de Carvalho



Autuanálise
Auto-análise


Assento-me no escabelo da minha consciência
e assisto maravilhado
ao desenrolar de múltiplos e incondicionáveis acontecimentos.
Que espectáculo maravilhoso !
Mas é preciso não sofrer de vertigens para suportá-lo.
Nascem-me, não sei de onde nem como,
ideias que borbulham ao princípio timidamente
para depois se imporem
e tudo ameaçarem inundar ;
e assim como vieram assim se vão
deixando é certo
uma impressão de imensa frescura
mas absolutamente nada de menos indefinido.
E as lembranças (?)
que assomam de buracos imprevisíveis
como ratos no cinema de Disney
e conforme encontram o terreno livre ou perigoso
assim se instalam, mas nunca tranquilamente,
ou passam correndo apenas reconhecíveis pelo sentimento ?
Também me enervam os ratos
mas não fujo para cima de nenhuma mesa.
Fico ali assistindo a cópulas monstruosas
em que dois -ou mais- destes seres inominados
se juntam e misturam impudicamente .
Pensamentos chamo eu
aos nascidos de partos de todas as categorias.
E, sempre sentado no escabelo da minha consciência
assisto ao crescimento dos meus pensamentos.
Sigo-lhes a vida a par e passo.
São milhares.
Discorrem ao princípio tranquilamente
a um lado e outro lado do conhecimento
e se encontram um pequeno obstáculo
fazem dele motivo de brincadeira.
Pequenos muros que saltam como cabritos contentes,
muros maiores que transpõem com galhardia
e maiores que transpõem com heroicidade.
São assim os meus pensamentos .
A sua vida é alegre mas não muito gloriosa
até que chegam ao último obstáculo.
É um muro grande grande de que se não vê o cimo
mas parece um muro deste lado.
Também podemos chamar-lhe o mistério
que é uma palavra para o que não tem palavras.
E depois que lá chegaram
e o enfrentaram
sem o conseguir ultrapassar
obstinam-se louca e encarniçadamente.
Empinam-se como cavalos generosos
e batem-lhe com as patas dianteiras.
Quando reconhecem a inutilidade dos seus esforços
quedam-se e reúnem-se para deliberar.
Então começam os desentendimentos.
Cada um tem a sua própria resolução
e engalfinham-se como galos estúpidos e barulhentos.
É aí que eu me levanto do meu escabelo
e cego pela ira -porque eu não admito violências-
procuro separar os contendores.
Luto com eles sem lhes ver a face
- irado como estou -
É uma luta terrível e silenciosa
e, subitamente,
encontro-me a esbofeteá-los.
Então uma grande calma nos invade
e voltam para mim a minha face magoada.

É por isso, é por isso
que eu tenho esta face magoada.


Geraldes de Carvalho
de “a outra luta de Jacob” Beira-Moçambique 1964

31.12.07

Fotografias de Altino Costa* Votos de um ano feliz

As fotografias do dia 15 de Dezembro de 2007: Evento do lançamento do livro "NASCIDO TARDE" de Ana Maria Costa.

A todos os meus amigo e leitores desejo um ano de 2008 de sucesso, paz e saude.

Com amizade e carinho.

Ana

30.12.07

CHÁ DE POESIA*Maria José Limeira

(Foto Galeria Cláudia Assad – Flickr
Formatação rosangela_aliberti)
CHÁ DE POESIA
Para Ana Maria Costa


Nesses confins do Nordeste,
um aboio só não basta.
Tem que se achar no iBest
uma rima muito casta
para curar maus novelos,
fios enrolados, bobinas.
Que venham, pois, os desvelos
pra mudar as tristes sinas.

Se existe expressão má,
também há palavras boas.
Rios correm para o mar
e as águas cantam loas.
Quem versa rima com rima.
Quem conversa também ri.
Aquele que é lá de cima
também pode rir aqui.

Pra se alegrar falta pouco:
somente chá de amizade
Risada é feito pipoco:
explode felicidade.
Quem quiser rir colha flores.
Quem não quiser se recolha.
Quem canta esquece dores.
Quem não canta come folha.

Não há coisa mais bonita
do que um chá de Poesia.
No verso, laço de fita.
Na palavra, luz do dia.
Não há coisa mais dengosa
do que ofertar buquê.
Do meu lado, uma rosa.
Do outro lado, você!

Maria José Limeira

http://maria-limeira.zip.net/

18.12.07

O evento foi lindddddoooooooooooooo


Fotografia de Altino Costa

PARABÉNS ANA

Realizou-se, hoje sábado às 16h o lançamento do primeiro livro de Ana Maria Costa nossa colega em diversas listas na sede da Sonae na Maia.
O espectáculo foi apresentado pela nossa colega poeta Mónica Correia e o livro foi comentado por Jorge Vicente e José Gil.
Realizou-se depois um magnífico espectáculo a salientar a dança, a dramatização de poemas, o jazz acid com dança , e a Tuna da Universidade do Porto – Faculdade de Letras.
Por este livro muito bonito e com belíssimo acabamento abrem-se novos projectos e novos caminhos a Ana Maria e aos novos poetas.
Parabéns para a ANA
José Gil
http://dialogosdogil.blogspot.com/

8.12.07

A minha participação na "Antologia de Natal" da Editora "Edium Editores"

Natal: aletrias e alegrias

A época do Natal aproxima-nos das memórias e os deveres morais acordam depois de um ano. Nestes dias, principalmente, contamos com o calor da lareira, a casa com cheiro de fresco, decorada com luzes e fantasias coloridas, bonecos que cantam e dançam. Na cozinha, o vapor das panelas assobia. É o bacalhau e a penca que, pela excessiva quantidade, transborda pela panela afora e o fogão, sujo dessa água, liberta cheiros de sal queimado. A mesa com a toalha com motivos do Natal para acolher a família vai se enchendo. Os presentes estão no chão, debaixo do "pinheirinho" de Natal, para mais tarde cumprir-se uma tradição.
Antes da ceia da véspera de Natal, preparam-se os doces típicos, Na minha casa o mais tradicional é a aletria. Esta sou eu quem faz, porque tem uma preparação que decorei facilmente: coloco uma panela com água e açúcar, um pau de canela, uma casca de limão e umas pitadas de sal. Deixo apurar o ponto preciso, que a avó ensinou, pego na colher de pau e levanto um fio da calda... está bom. "Está no ponto?". pergunta a Vó Rosa, que está a acender a lareira na sala. "Sim, Vó, fiz como me ensinaste. Está espesso e cai em fio. Agora vou juntar a aletria à calda. Mais uns minutos e está pronto."
Enquanto espero que a aletria fique pronta, passo um pano seco na travessa com desenhos azuis e amarelos que está guardada desde o ano passado. Foi a minha mãe que a deu, junto com um beijo, quando me casei. "Usa-a só no Natal para levares a aletria à mesa, como eu fiz e a tua avó Linda." Disse-me ela.
Com este pensamento na mente, espalho a aletria com cuidado para não sujar os desenhos da travessa. Em seguida, meto a panela debaixo da torneira, abro a água até a encher e deixo ficar. Volto à travessa. Como num ritual, pego-a com as duas mãos, movimentando-a em pequenos movimentos circulares para espalhar a aletria uniformemente. Pronto.
Vamos ao passo que mais gosto de fazer: desenhar sobre o prato com a canela em pó. Às vezes, faço um coração com setas, outras vezes, faço quadrados e, quando não me apetece fazer desenhos, semeio a canela de forma que cubra toda a aletria. O meu pai diz que vê sempre o desenho de uma pomba, mas sei que o faz para me agradar.
A minha mãe, mais a minha avó, Linda, fazem as outras doçarias: leite creme, pudim, sonhos, migas doces ou formigos, enquanto a avó Rosa descasca as batatas e escolhe as hortaliças adiantando a ceia.
Não pode faltar, também, o pão-de-ló feito pelo meu marido com os ovos frescos que as galinhas do nosso quintal puseram no dia anterior. Bacias de barro, farinha, ovos, açúcar, sal, manteiga e o papel para forrar as formas de barro. O forno a lenha no meio do pátio já está na temperatura certa e as formas são metidas no lume por uma hora.
A noite adianta-se, o bacalhau está cozido, os gatos esperam os restos, os cães, uma ração maior e, no meio de conversas boas estão as menos boas, mas todas acabam em memórias, como esta carta minha.

Ana Maria Costa

O texto incluido na "Antologia de Natal "da Editora Edium Editores


11.11.07

Amizade


AMIZADES - este é um pedido do coração - A SOLIDARIEDADE EM ACÇAO E A LITERATURA EM CIRCULAÇÃO

A EDIUM EDITORES, http://ediumeditores.blogspot.com/

com cerca de 80 títulos publicados, prestes a fazer dois anos que iniciou sua actividade, vai editar um livro meu, prosa, «Salvador, o Homem e Textos InConSequentes».
É uma editora pequena, mas esforçada na divulgação da cultura.
Tem publicado autores não muito conhecidos e jovens autores, o que, à partida não garante grandes receitas, ora sendo o objectivo maior a divulgação da literatura tem na mesma que ser rentável senão ...morre .

Asim o seu proprietário, agente directo em todas as fases do processo, pretende promover a venda on-line, no futuro.
Para já, para garantir a cobertura dos custos, ensaiou esta modalidade que vos proponho:

Quem quiser pode (POR FAVOR LEIAM E RESERVEM SEM PROTELAR SENÃO ESQUECEM) fazer uma pré-reserva do número de livros que se propõe adquirir, para:
ediumeditores@gmail.com
Valor da capa: 10,00€/livro
Nº de pág. + ou - 80
Serão convidadas/os,via email e moradas, os que detenho, para apresentação do livro no início de Dezembro.
Quem fizer pré-reserva e pagar por cheque ou transferência bancária (acordar com o Editor- ver site acima referido) fica isento d os custos dos CTT OS QUAIS , COMO SABEM, SÃO BEM GRAVOSOS.

Agradeço que quando fizerem as vossas pré-reservas (muitas) - lembrem-se das prendinhas de Natal - ao enviarem o email ao editor me enviem o mesmo email em:c.c.
Fazemos trabalho conjunto.
« S inopse: de «Salvador, o Homem e Textos InConSequentes»

O livro pode ser decomposto em duas partes, das quais,«Salvador, o Homem» abrange cerca de um terço.
Mais próximo da novela do que do conto relata a experiência de Salvador ao descobrir o fantást ico que a vida encerra e que o mundo é muito mais do que o que vemos no dia a dia, assim como nele, enquanto ser humano,existem dimensões inexploradas, até ignoradas que ao descobrir e as integrar no seu todo alteram sua vida e de todos ao seu redor.

Os textos restantes enquadram-se mais no conceito americano de short-stories e diversificam o leque de leitura de uma forma que cremos será de vosso agrado e que o próprio título vos permite intuir a existência d nexos, aparentemente inexistentes.»

Minhas e meus amigos, nesta hora de "parir" mais uma cria conto convosco.

Desejo uma boa semana e P.F. divulguem esta informação pelos vossos contactos pois poderá haver pessoas eventualmente interessadas.

Bj

Luz e paz em vosso caminhar e ao vosso redor
Conceição Paulino

8.11.07

No dia 08 de Novembro Reportagem 2

Amigos leitores!

Informo que neste dia, neste horário: 10.02 da manhã e 19.30 da tarde, podem ver este blog e o http://blogdalista.blogspot.com, no canal privado AXN.

Jinhos

Ana Maria Costa

Fogo na garganta


I

Sei-vos distantes e não é dos metros que o mar tem
É da medida da memória que tão curta é, que pequena se torna para algumas lembranças.
Memória que nos atraiçoa que nos cega com letras em brasa em vez de flores.
As caminhadas são iguais como as estações do ano! Voltam com início meio e fim e voltam, outra vez, sempre!
É a distância que o meio tem do principio ao fim que não encontro nestas memórias.

II

Sinto a garganta que me arde e não é de suplica de paixão ou de fado.
É o abismo de ecos que se esmurram nas paredes do gargalo do esófago .
Todas querem sair ao mesmo tempo evitando o filtro e a língua. Desencadeando faíscas. Ardem!
Tenho o corpo fraco de tanto vos carregar de vos ir buscar nessa distância.
Distância.
Que me leva às palavras e as palavras à leitura e a leitura à combustão na garganta.


III

Devo adormecer os dedos ou come-los mas eles passariam nas cordas vocais, tocando-as
e nova combustão acontecia….
Nada mais resta que fogo na garganta e o meio na distância.


Ana Maria Costa

28.10.07

Desafio da semana de poesia da lista Amantedasleituras



Desafio da semana 36-07:
nota: todos os desafios da semana de poesia são moderados pelo amigo e Poeta Luís Monteiro da Cunha.

TEMA: "Há sempre uma forma / de mentir para uma verdade!"
Ana Mª Costa , in: " Há "


01


Fossem as flores
mananciais de amor - as cores
suas expressões.
Fossem os oceanos
lágrimas irrompidas da dor - as chuvas
o viçoso alívio dos corações.

Fossem os sorrisos
o brilho do sol – as memórias
o cintilar das estrelas.
Fosse a serenidade
o corpo estendido no lençol – o poema
fantasias espelhadas em verdade ao lê-las.

02


fossem imagens a sussurrar, a convidar
e eu as aceitaria, mesmo que o caminho
não fosse como no tempo do sonho

ficção beirando a verdade não mente

não mais do que as histórias sinceras
que contei, quando não via miragens.

03


Ah... tanto azul
para lá desse mar.
Aflito por morrer
e renascer mil vezes
e outras mil
fingir ser maior
que o morrer
e renascer
com que em ti
um novo azul intento...

04

sim há sempre a forma
um desejo um desenho
um destino
uma aurora
há sempre um dado e um canto
um parto um porto
um santo
há sempre a hora do sonho
de estar bem vivo ou morto
e na verdade
da própria somos pouco sabedores:
mentimos que foi-se a sorte
que a dor é só do poeta
que temos até - amores.


05

quando fogem os olhos dos olhos
quando disfarças com um ( não sei )
quando vestes falsa simpatia
quando receias que
outros possam tirar-te o palco da ribalta
( o umbigo fala mais que o coração)
e nele só tens a cartilha fingida da religião,
há sim! há sempre uma forma de mentir
para uma verdade que convém.
não seja a história...uma repetição
de mentiras...


06
devo mentir para salvar a humanidade
a flor de um ser humano, devo mentir
antes que a flor seja assassinada

num bosque onde dormirei a lágrima


07

Todo desejo indiscreto escondido é espelho
reflexo a ondular a alma que arde e encanta
a voz com timbre metal que fere a serenidade
onde há múltiplas formações orgânicas
plantas são regadas - gotas e novas circunstâncias
conto com a compreensão dos nós da madeira
na luz e nas trevas cheia de círculos e inverdades
em dias em que a água cai sem anunciar os estudos
a linguagem humana cheira raízes na terra
trago no corpo um vaso de flores frutos e sementes
poemas são balés nos cabelos do vento do norte
nos rios marolas se perpetuam até as ondas de sal


08
Na mesma religião o que rezamos é distinto
Na paleta das cores pintamos o mundo diferente.
Eu minto de vermelho os meus dias de amor
E tu mentes de escuro os meus dias por despeito,
Mas há que cores não se misturam na verdade do sol.


09
O sol morre todos os dias
Por todos os amantes
Que anseiam nas estrelas
O luar dos mares navegantes
No brilho dos nossos olhos
Nasce um farol de sonhos
Terno e justo de instantes

10
Quantas vezes
a bandeira da verdade
icei na minha janela
e a porta abri ao mensageiro
que supus o mais verdadeiro
porém em mim
esse eu sincero mentindo
porque toda a verdade
é uma mentira fingida
ou não fosse a vida
em cada dia surgindo
a necessidade de mentir
ao próprio sentir.


…,…


Índice de autores:


01 – Vera Carvalho
02 – Sónia Regina
03 – Carlos Luanda
04 – Eliana Mora
05 – Ísis
06 – José Gil
07 – Rosangela Aliberti
08 – Mónica Correia
09 – Luís Monteiro da Cunha
10 - Bernardete Costa

20.10.07

Desafio da semana de poesia da lista Amantedasleituras



TEMA: "um delicado pólen a penetrar/em minha tenra/flor"
de Eliana Mora, in – " Pacto com um sol de primavera"


01
magia
ou como se existisse
dentro da escuridão o branco trinca
como pedra pura, diamante

noite!
em que simbologia
onde mais incorporar desvios sombras ou olhar
treme que a pulsão que é tua
atónita pergunta

clara/mente
criatura a esperar a chama tua
muda completa e portentosa
lança escrava e bárbara a procurar o segredo
desta rosa

e a mandala ergue-se e agita todos os tormentos
soma-se à luz
sagra-se

[e a vida grita
02
Orvalha a manhã na verdura das folhas
e as pétalas que se abrem em rubro
unem-se em poema veludoso.
São jardins as mãos de poeta

03
oficina do corpo no barro fértil
da flor como um murmúrio
no teu ouvido forte e limpo
só flauta, assobio lento
teu corpo de mimo no lençol
parede clara para o novo
barro liso e claro
04
ah, mas foi o vento, essa imodesta
inquietação, suspensa presença,
que me ensinou a manter-me fresca
e sensível, passeando vagarosamente
por minha tez aveludada

com ele aprendi a receber o resgatável
pólen no impreciso vôo, na sua descida
ao fundo da minha delicadeza

aprendi a saboreá-lo, a domar a humidade
das minhas pétalas que o aguardam
- nuas de sorriso, como num rito –
no momento solene da penetração

05
Cada gota é um sol de pétalas
Sonoras como madrugadas
Entre lençóis de sede rubra
Na sede dos corpos plenos
É o pólen que excita a flor
Não só o estilete ruborizado
Incendeia a terra eterna
Pelo estigma do futuro
Ávido de braços candentes
06
Minha flor não é mais tenra flor
e sua terra talvez seja o leito de meus grãos
em meu espasmo de inquietação
porque ora delicada ora agreste
sua nuvem de pólen habita ainda por entre
as membranas duma fotografia
Em mim esta respiração que dos frutos colho
das lembranças em minha geografia.
07
Entre as mãos te seguro
Pedaço do qual sou feito.
Corpo de terra
sonho de mim,
Água de lábios,
areal sem fim.
Mar numa gota
de suor feito veias.
Onde sou nau e velame
e já não sou nem mais eu.
E entre o sempre
dos milénios
condensados
no eterno voo
dum momento,
Solta-se-me dos olhos
o pólen imergente,
da luz, a semente
que povoa os céus.
08
talvez não mais sejas tu a colher-me
das pétalas o fruto e, se gemes no leito
com o descanso da tua paisagem,
é porque nesse insólito fertilizar
divagaste pelo avesso

mais do que a chuva que não desliza,
altera a terra o suor que navegaste
e a vaporizou, névoa, delicadamente

o sol que nasce de um momento breve
(ainda que de esmaecido vôo) fica
eterno na memória do pólen, dia alongado

na hora da germinação a luz adormece,
os céus paralisam e se esvazia
de qualquer ímpeto o cenário.

09
o mel

à boca da flor

Abre um sol

10
na pura manhã
um bilhete da Lua:
eu vi!


Índice de autores:

01 – Eliana Mora
02 – Vera Carvalho
03 – José Gil
04 – Sónia Regina
05 – Luís Monteiro da Cunha
06 – Bernardete Costa
07 – Carlos Luanda
08 – Sónia Regina
09 – Ana Maria Costa
10 – Eliana Mora

Minho actual tv