21.2.07

Sem ti



Sem ti

Sem ti a chuva continua a cair,

a pele do sorriso fecha a boca e

as águas correm e as nuvens passam.

Não as consigo apanhar, estou cansada de correr nas paisagens das fotografias.

Sem ti, as ondas do mar envolvem a areia e as gaivotas voam livres pelo céu.

O céu que preservas no frigorífico. Não entendes que

Sem ti, o tempo corre, as pessoas vagueiam e a existência quotidiana continua.

Eu continuo...

à espera sentada numa pedra nua com toda a noite, ao meu lado.

Mas sem ti eu paraliso, o meu corpo torna-se desnecessário, os meus sentidos são amortiçados.

No quarto da língua o calor faz amor com a minha espuma.

Enlouquecidos os sentidos saem pelo nariz para as minhas mãos, mas mesmo assim...

Sem ti não existe manhã, tarde, noite, minutos, horas, apenas um tempo…uma agitação,

Fica o espaço no cimo da torre da igreja onde os átomos badalam a química das pombas sobre a tua estátua

longe de mim que me gela o sangue e me provoca lágrimas oprimidas.

Encho almofadas de penas umas partidas e outras gastas de tanto te escrever e não responderes, sabes que

Sem ti não existo como corpo, como mulher, como afago, sou escuridão cativa deste mundo.

Vera Carvalho e Ana Mª Costa

20.2.07

Justiça

No dia,

que eu morrer

por causa do meu coração

peço, para que não o enterrem comigo.

Antes

o prendam e condenem

à morte.

Ana maria costa

04 de Fevereiro de 2007

16.2.07

poema ana maria costa*formatação de Sónia Regina

formatação do poema de Sónia Regina
Obrigado Sónia pelo carinho.
ana

15.2.07

Contagem

Morta.
Pó a pó a terra
conta-me na eternidade

ana maria costa

02 de fevereiro de 2007


14.2.07

Amigo fiel

Chego a casa
meu coração
o cão lambe.

Ana Mª Costa

Figura

12.2.07

Perspéctiva feminina


Peitos

binóculos do coração.

Mulher vê mais longe!

ana maria soares da costa
08.02.07

Pintura a óleo retirada do site


10.2.07

Aborto

Os dias em que sou mãe
os minutos caem ao chão.

Ana maria costa

09.02.2007


fotografia

7.2.07

Se pudesse


Se pudesse
comia as cores
falava arco-íris.
Ana maria costa
07.02.07

5.2.07

À noite




O fogo sai da lareira.
abandonado pelo frio
o corpo agasalha-se no calor.

Ana maria costa
04 de fevereiro de 2007



gravura de Bernardo Cid

1.2.07

Necrologia

Com os anos
a morte
de gato
de Pai
de vizinho
de flores.
No coração,
meu cemitério,
enterraram cruzes.

Ana Mª Costa

01 de Fevereiro de 2007


fotografia de Judith Tomaz

29.1.07

Epigrafe de Manuel Xarepe



" nas linhas dum simples verso "

Manuel Xarepe

Nas linhas de um simples verso

o imaginário cresce sombra da linha

da esquerda para a direita.



Nas linhas de um simples verso

aumento horizontes

do princípio para o fim.



Ana Mª Costa

(fotografia de Judith Tomaz)

26.1.07

o meu mundo

(fotografia de Teresa Rosa)
Esponja
sugo o mundo.

O coração

pólos, altos gelos
crescem espremidos.



ana maria costa
25 de janeiro de 2007

20.1.07

A loja dos sorrisos


Hoje, vou comprar um sorriso, dos saldos,
na loja da esquina da rua dos Postiços.
Já o avistara, quando nasci, mas, não
tinha dinheiro.

Quando entrei na loja, estava cheia
de crianças mais novas, umas, outras
mais velhas que eu. Mal podia mexer-me.
Escorregava nas lágrimas que lavavam o chão.

À medida que me entranhava nos corredores
da loja, afastava os lábios, atractivos , que se
dirigiam para mim, mas eram mais caros do
que o sorriso que queria ter.
Era o Marketing que anunciavam na televisão.

O meu sorriso estava no fundo da loja, na secção
dos sonhos adormecidos, dentro de uma caixa de
laje branca. Com letras verdes, que a piscar,
acendiam o meu nome - aquele que não tinha -
antes de nascer. Tracei passos no mapa, a sua
direcção, esmigalhei pernas, sapatos, corações
- uns a quem conhecia - outros que só os vi
algures, uma só vez.

Passo a secção dos semblantes e gosto do mais
aberto; apercebo-me que era um desvio, para que
não comprasse o meu sorriso. Resisto à tentação.

Agarro na mão os espelhos dos meus anos,
que trago no bolso. Quebro-os na raiva dos dentes.

Na distância longínqua, perdi muito tempo a chegar
ao meu sorriso. Como um rio, que leva cheio o árido
ventre de verão; a água fica no fio do leito.

Alguém se tinha adiantado. Estava com
o meu sorriso, na mão, experimentando-o.
Não chorei logo, mas ajoelhei-me na voz
da oração; pedi a Deus que mo devolvesse.
Ele disse-me que era um engano dos anjos,
que este, não era o meu sorriso definitivo.
Comecei a cantar palavras de humilhação.
A esperança esvazia-se do meu balão.

Sei que não devo chorar novamente,
as lágrimas que se perderam no fundo
do queixo, quando saltaram para o abismo.
As lágrima são todas suicidas!

Encontro no mofo coração, o meu feitio
de mula. Com ele monto a mais alta
montanha do mundo - que nunca vi,
nem dela sei o nome.

Despi-a do gelo e da carne, enquanto
orava alto. Mais alto que qualquer
criança birrenta, mimada no colo do açúcar.

Assim, permaneci anos, - para mim séculos - não sei,
até que as nuvens choraram. Deus também!
- Foste ouvida! - disse uma besta, que me ouviu,
nas suas asas sem cor, oculta por muitos olhos.
(Iguais aos meus vendem-se na loja, na rua das Águias
Cegas, perto da loja do suposto "Meu sorriso").

Sorriso que acabo de comprar, nos saldos da hipocrisia.

Hoje finalmente, vou usá-lo,
e pensar que sou feliz.


Ana Mª Costa
19 de janeiro de 2007

imagem de Teresa Fonseca


16.1.07

Sobre a épigrafe da Alexandra Oliveira

(fotografia de Rui Pinto)

“Pousada nos ombros a cisma”

Alexandra Oliveira

É onde pouso os olhos.

Na planície das cores

dos corpos inertes

e de outros corpos iguais ao meu.

É onde pouso os olhos.

Sendo eles animais

espreitam os perigos, os alimentos

que a planície guarda na bolsa das cores.

É onde pouso os olhos.

No mundo dos vícios.

Olhos que se abrem,

olhos que se fecham

num voo raso, sem asas

no pó antepassado.

É onde pouso os olhos

e a mente. Na natureza.

Sucata sou neste mundo

que adormeço e amasso.

Do meio de ferros, destroços

pousada nos ombros das folhas da noite

desembrulho verdes, da ferrugem,

as mamas do outro mundo, o meu mundo.

É onde pouso os olhos e acredito

que cismar não muda a planície dos meus dias.

Olhos, os olhos, olhos ...

Os olhos que reflectem o pouso do dia

são dos pensamentos, que apanho do chão.

ana maria costa

13.1.07

Palavras para o ar

Talvez a poesia não seja a minha carne definitiva

Talvez seja uma pele que permanece um tempo que depois sai, na altura certa.

Talvez a minha força esteja no meu cabelo e não na poesia

Talvez seja melhor cortar a poesia da minha cabeça.

Talvez faça um daqueles penteados à skinet e fume uns charros feito de

palavras verdes.

Talvez não seja vaidosa ou radiosa como dizem os concursos

quando, na verdade, carrego a poesia desfalecida nos meus braços.

©Ana Maria Soares da Costa

12 de Janeiro de 2007

11.1.07

dedicado a Ana Maria Costa




Pinta a vaidade de humildade

Quando te fulmina, atenta e presunçosa.
Envolve, sem qualquer pergaminho da terra.
Pecaminosa, despida de verdade
O denodo que em si encerra, penetra fundo
nos teus olhos. Clama insanidade.

Quando os olhos cerras e assim mesmo
te vês, negas a candura do que pouco sabe, és
Fogo ardente das quimeras que consomem
O sábio junco da idade.

Tu! e só tu,
podes pintar a vaidade

Com os olhos da humildade.

No troante
Silêncio do despeito
Alheio à banalidade
do pensamento.


Luís Monteiro da Cunha
2007-01-10 12h52

8.1.07

(A )deus

Atravesso os dias com a sombra dos desertos.

Piso os caminhos do fundo da alma

com cactos dentro do nariz

e uma poça de lágrimas nas mãos.

O suor bebe a paciência dos canticos colados

na boca que recusa beber as lágrimas.

Disseram-me que nos oásis, as noites são obrigadas a dormirem.

Mas quem dera que eu fosse, antes, uma fera

habitante natural do (meio) instinto

não seria eu uma presa das horas das noites

cria de todos os dias.

©ana maria costa

07.01.2007

7.1.07

Corpos sem som

O link do blog do livro de :

Mónica Correia

5.1.07

eu e o Ricardo Biquinha


o sussurro nasce no fundo da boca e desce para os

teus lábios em pólen

da colmeia do amor nascem línguas com

sabor a mel

que encho nos frascos de águas

frescura de teus sons

arrolho-os com cheiro

aroma flor

e a janela esvoaça

em vento e abraços

doces, enrolados nas

folhas de prazer

Ricardo Biquinha e Ana Mª Costa

Dezembro 2006

4.1.07

Mónica Correia

eu e a Mónica Correia

Apresento-vos Mónica Correia a autora do livro "Corpos sem som".

Talento, sensibilidade e beleza é o que a Mónica oferece no seu livro.

eu, José Gil e Jorge Vicente

os três fizemos a apresentação do livro da Mónica do qual eu tive o prazer e honra de escrever o prefácio.

Obrigado Mónica!

esta sou eu no lançamento do livro da Mónica Correia

Amigos presente e assumida.

Tal como sou quando me junto com amigos de quem muito gosto, como é o caso da Mónica Correia, Alexandra Oliveira, Joseph Sherman, José Gil, Jorge Vicente, Pimenta e Alice Sequeira entre outros que se sentaram em espírito na noite de lançamento do livro "Corpos sem som" de Mónica Correia.
No próximo evento literário conto convosco para que nos possamos conhecer e fazer uma tertúlia, qui çá?

Abraços poéticos para todos vocês que me lêem sempre ou quase sempre

3.1.07

Para o Eduardo Lobo

(fotografia de José Gama)


Eduardo, obrigado pela sinceridade e abertura de diálogo.



Sabendo que do nada
que escrevo é nada
de poesia!

Sabendo que escrever
de nada é nada!

Sabendo que a matemática
é ciência e que dois mais dois
são quatro.

Sabendo que a poesia
não é, para mim, uma ciência

Porque a ciência não é nada
que se escreve
sabendo nada!


Ana Maria Costa
03.01.2007

2.1.07

Varandas

"Na varanda de meus versos,
Planto rosas nas linhas de minhas mãos. "

ARY CARLOS CARDOSO



Como na varanda dos olhos;

Se estendem nos ventos a imaginação
esculturas de pombas e naturezas mortas.


Como na varanda dos olhos;

Se estendem searas de percepções cruas
formas semelhantes a diferentes partes
para cada olho.

E, vê cada um dos olhos;

metades do fraco mundo florescido
como folhas caídas na miséria habitam, Outonos
no arame farpado farrapos de força.


E, vê cada um dos olhos;


metades do mundo de procuras
subterrâneas de estrelas (in)visuais
fosseis ou grãos de água viva.
Outros, lavram mais uma
nova doença do pousio da terra.


E, vê cada um dos olhos;

metades do mundo de passagem, nesta via rápida.
Antes da viagem, decora-se
as últimas letras do amor
ponteia-se a paz na bandeira do céu,
ou na indiferença da alma arde-se no destino.


Na varanda dos olhos;

não se sabe se as metades do mundo vivem
ou se são as metades inteiras partes mortas.

Talvez, na varanda em vez de olhos
tivéssemos linhas de flores!

©Ana maria costa
29 de Dezembro de 2006

1.1.07

Insucesso no tempo


O homem

parte o tempo

em leis!

As árvores não se importam!

Pelo contrário,

dão os braços umas às outras e procriam-se

sem preservativos.

o dinheiro

já não presta

ter muito ao tê-lo todo, não chega!

Agora

quer-se células de celicone

para acrescentar no cérebro da história.

A história

continua a chorar no pus das

leis e ambições das mesmas mentes feridas.

Talvez

as arvores nos possam ensinar como fazemos

para darmos os braços e simplesmente existirmos

como as folhas.

ana maria costa

01 de Janeiro de 2007


30.12.06

Carlos Luanda e eu

(fotografia de Luis Sarmento)

Mexe-me a saliva

abro fruto, o lábio

em ondas

Sons

húmidos

de doces sabores

maças vermelhas e bocas

por entre as margens

limpam rios

do teu corpo.

Devagar …devagar

Umas após outras

em gomos

ou

peças de arte

sem palavras

sem nome

Dizem-se:

Apenas maçãs

A paixão

rolando

Arde-se

por entre os dedos

ao concavo das mãos

onde se afogam

reflexos

nus

sumo do amor e

os segredos

aparecem no cesto

peitos das minhas fomes.


Carlos Luanda e Ana maria costa.

29.12.06

como pétalas de ar
descem saudades às minhas mãos
Corto-as imagens do teu corpo.
No gelo enterro: não as noites ou os dias
mas as horas que o relógio esconde, no interior
na caixa do coração.

Sou um sofá sentado nos teus olhos
que acaricia as saudades no colo.
ana maria costa
28 de Dezembro de 2006

(fotografia Mário galvão Ferreira Galante)


28.12.06

Eliana Mora (Brasil) e Ana Mª Costa

(fotografia de Teresa Rocha)
I

Minha saudade parou

como um lago

quando nem brisa há.

E ficou a esperar, a esperar...


II



teu lago de veias

move o meu coração

o corpo
pára no lago

a brisa
espera na pele.



III


a fome espera na tarde


macia


sedenta


IV

é
na manhã
bronze


dura


lisa


que trinco os minutos.


V


lentos


como fardos, eles escorrem


e eu apenas a observar


a cena


VI


impeço com o dedo


o
embaciar do vidro


olho


o cuspo lento


da temperatura do dia.



VII

como que para retardá-lo


e pudesse [quem sabe]


sobreviver ainda


à falta tua


VIII



pára
o rio na boca do mar
e
os lábios secos
na humidade da língua
eu
não paro!
retardo-me
no vidro, corpo areia.


IX


e sigo
a alimentar-me de um fogo
fato, apenas
o leito
são mãos a permear-me


X


Bate
a marreta no peito
e
incessantemente
chispam
labaredas da boca.


XI


o caos espalha-se
como que a perceber os caminho
sem que voo


XII


queimo o corpo num fósforo
e
um grito dentro da garrafa
bóia
no mar de ossos.


XIII


rezo

para quem vão meus pedires
não me pergunte
eles seque saem daqui da garganta
talvez nem chore mais
rasga-se o mapa


XIV


ligo uma mangueira
dos meu olhos aos teus
siamesas
extinguimos falhas.


XV


e nos unimos

como gotas do mesmo orvalho
da mesma folha
para que na pureza
possamos conseguir a graça


XVI


abrimos o ventre do céu
entramos na luz parteira
e chupamos o mesmo dedo.



XVII


até encontrar o espaço
o regaço
a tão esperada paz


XVIII


a espera termina viva
_ na saudade!
a brisa
levanta-se da pele
o lago
mexe o corpo
e os teus olhos
levo-os
no meu cesto cheio de maçãs!


Eliana Mora e Ana Mª Costa


15 de Dezembro de 2006

26.12.06

Esta noite

(1000imagensnujosemaria)

Balanço o corpo no colo de um sofá
e alimento o rosto na argila do sangue do pântano.
Nas mãos, a paisagem ajoelha-se dentro do meu ventre.
No cais da gruta descubro o comando da melancolia e
ligo à televisão da minha janela, o sexo das tuas palavras.

A noite planto-as com laranjas.


©ana maria costa
25 de Dezembro de 2006
Comentário de um amigo do site do recantodasletras
Ana: Sei que não há "a imagem" de um poema, sei também que ela não se dá por completo, sei ainda que toda imagem "resulta de um complicado processo de organização perceptiva". Ora, no poema, ela "é uma palavra articulada" arrumada, é verdade, por vários fatores, talvez o principal, a metáfora. Neste poema, a despeito de tantas outras, acabei me detendo em "laranjas". O verso final se me parece boa síntese: a noite é fecunda. O corpo ao buscar o "repouso" exige que este ocorra alicerçado no nobre (sangue). Por isto, todo o ser é receptividade (janela); mas o "eu poético" age com plena consciência (mãos), ao mesmo tempo em que oferece a ternura, a proteção e o refúgio (ventre). Valeu!!!
Enviado por Ary Carlos Moura Cardoso em 26/12/2006 19:39para o texto"Esta noite"
http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=3901

24.12.06

A estátua



Palavras para o ar!


No tecto, no candeeiro, as aranhas enrolam o nosso amor junto com as carcaças das moscas
e a luz funde a nossa dança: a nossa música desligada no interruptor, pára!
A cama desmaia no tapete e tomba a tua fotografia dos meu olhos.
Derreto os cotovelos nas ombreiras das portadas de vidro
e os dias que penduro no nariz, como piercings, são buracos no calendário, do ontem e do outro ontem!
-quando vens meu amor?
São os minutos pontes de nevoeiro entre o chão do meu corpo e a tua estátua?
Não fossem as paredes do meu quarto feitas com os teus cabelos e o soalho da tua pele;
hoje, não calçava o pensamento com os teus beijos.
Este texto, que escrevo, pode ser entendido como uma carta mas, para mim,
é uma biblioteca dos minutos que arde no pó das prateleiras, na lareira do meu corpo.



23 de Dezembro de 2006
©ana maria costa

21.12.06

Das horas púrpuras de Amina Ruthar e Ana Mª Costa







_ das horas púrpuras _

as vozes da casa silenciam em púrpuras horas

os minutos penduram-se nos pelos do meu corpo e

todas as minhas ausências sentam-se a mesa

excepto uma _ que guardo no bolso do peito

que ainda respira o último fôlego de memórias

nos rebentos de arvores jovens crescem

tímidas as palavras de seus recuos regressadas

dentro da gaveta da mesa saem costelas e

ancoram-se inutilmente entre vãos das portas

entre o trinque e a fechadura da campa

os passos de meu pai atravessando os sonhos

da terra fofa, mais húmus de carne do que de flores e

dizem de vesperais melancólicos sobre o jardim

lágrimas que regam os novos rebentos

e as mãos de minha mãe ainda alisando lutos

sobre o choro do lenço que a cobre à noite e

retiram o pó e fuligem do tempo que me devora

é esta a carne que tapa a cova do meu pai

em mudez plástica deus vai e vem como um tijolo:

o diabo põem-se no seu caminho com todo o inferno frio e

- esmaga minha história!

Amina Ruthar e Ana Mª Costa



20.12.06


(gravura retirada de:lecirquedenus-ebsqartlecirquedenus)


Há pessoas que nunca vão conseguir deixar de mentir!
Há gatos que nunca vão deixar de miar!
Há lágrimas que não vão deixar de aparecer até à idade de ser cadáver!
Há palavras novas que dizem coisas do pergaminho!
Há sentimentos que são velhos e da boca repetem-se, partos.
Há mentiras que mudam vidas mas não mudam a cor das lágrimas.
Há sangue que não é vermelho mas lava que cega os olhos.

Quando:


Há sempre uma forma de mentir para uma verdade!

Até:

Há confusão na humanidade - são as lágrimas rios de mentiras ou águas de verdade?

Ana Mª Costa





(fotografia de Patricia Cohen)

Tenho algo que treme ao teu deslizar .
Será voz ou imagem?

A dúvida deixo-a cair nos alicerces do verbo
e na ponte separo em partes a flor e o perfume.

Escolhe o vento fazer do destino um poema instantâneo
e nas águas mistura-nos ao papel!

Ana Maria Costa

16.12.06

Dedicado à Monica Correia

fotografia de Jorge Coimbra


A Mónica é um jardim de flores que ama palavras.

As sementes amadurecidas espalham das mãos de vento

sopros de ouro ou letras em metal.

Para o colo do sol salta o luar quando abre a sua janela

e senta-se no parapeito dos sentimentos

com as palavras que a noite acende.

No som do violino que toca da sua poesia

o beijo sai dos lábios nas madrugadas livres

e voa verbo das flores do seu jardim.



Ana Mª Costa

15.12.06


gravura retirada do insite: inlisboa lamento mas desconheço o autor _se alguém souber agradeço a sua divulgação!


Vale a pena
guardar o pó
nos meus olhos,
e alagá-los com as tuas sementes
para agora chorar o que vejo!

Ana Mª Costa
pintura de Nicolas Kuligowski


quando falas do silêncio
lembro-me de um pano branco
seco no galho de uma nuvem
no fundo do poço do céu.
O eco na imagem da água
é uma boca sem lábios
como são os arrepios sem pele.
Tapa o céu com o teu rosto
e fala-me do_ silêncio.

Ana Mª Costa

13.12.06

Fotografia: José Vaz Meneses




Dá-me a água e o sabão
quero lavar o meu silêncio
nas letras do teu poema.
Deixa-me enfeitar a minha história

com bolas de perfume
que flutuam do meu corpo
Com Cheiro de talco

e a pele de criança em pó
ou loção do frasco da palavra .
Dá-me o livro onde cresce um coelho,

com botas e a fala.
Nos dedos enrolam-se rebentos de amor

e os meus olhos vão lá dentro.
E, a poesia não é um animal, mas

a chave para a porta do nosso Interior
Dá-me um livro onde

pendure os poemas nas folhas e
a água e o sabão escorregam com o meu silêncio.
Deixa que o teu vento sopre a cor nas vírgulas,

nos pontos e nos espaços
E no papel os segredo de amor, com ouro ou

com diamantes limpam-se do
carvão dos sentidos.

Ana Mª Costa

7.12.06

Fotografia: autor desconhecido



no húmus a lágrima cresce madrugada
e o outono leva nas folhas
a tinta do velho amor
compro lindas roupas
uns lábios novos
e sacudo o verde da lapela
e das estações da pele
na roda dos meus aromas
cresce no meu útero
uma nova flor

Ana Maria Costa

5.12.06

Jorge Vicente e eu

Fotografia: Maria Clarinda Galante



Um poema treme ao deslizar do papel

a voz instantânea de quem tudo vê

e sente e ouve deslizo o meu corpo

quando escrevo páginas de sangue as

minhas as do mundo todo eu

sou o mundo todo em todas as palavras

e em todos os silêncios entre as palavras

Jorge Vicente


Escorrem do meu corpo silêncios para o papel [silêncio?…]

misturam-se no teu sangue e faz-se outro mundo_ o nosso!

Sem sexo, sem ventre aparece instantâneo

no traço verga-se as curvas no espírito das nossas palavras

e dos seios das imagens abrem trémulos os bicos de luz.

Ana Mª Costa

4.12.06

Um mimo


Fotografia: Helder Almeida



Este blog foi um mimo da uma poetisa, que pede anonimato, convidada da minha lista de poesia "Amantedasleituras".

Quis oferecê-lo como se fosse um ramo de flores.

Envio um cheiro (como dizem as migas brasileiras)

Obrigada Poetisa!

jinhos

Ana

1.12.06

Poesia declamada por Luis Gaspar*Estúdio Raposa

Está online o novo programa do Estúdio Raposa "Lugar aos Outros" de Luis Gaspar, onde se pode ouvir três poemas da minha autoria.

Ouça e comente.

Minho actual tv